segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

# 294

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se eu tivesse o dom, eu escreveria um samba de cada uma de minhas paixões, relatando, à letra fiel, o que eu passei em cada um dos relacionamentos.
mas não sei fazer samba. só sei escrever prosa, então vai em prosa mesmo.

o meu problema é acreditar em romantismo, e essas bobagens todas, o que reforço, e até justifica, com esse meu gosto gigante pelas músicas bregas, que são as mais sinceras.
e talvez também eu tenha um desejo cada vez mais crescente de encontrar um porto pra descansar o barco que é minha vida por um grande tempo.

daí, esse desejo de viver um desses romances cantados pelas músicas do Roberto Carlos e companhia me leva a navegar por qualquer mar que se mostre aparentemente aprazível.
então vou ali, e velejo naquelas águas, tranquilas no começo, mas que vão se mostrando cada vez mais tortuosas.

mas como bom escorpiano, aporto meu barco, e mergulho naquelas águas, encharcando todos os meus ossos, afinal, a vida inteira é um risco. 

chegam as primeiras tempestades, às quais enfrento com aqueles guarda-chuvas grandes dos quais tanto gosto. 
e por alguns dias, o tempo volta a ficar bom, mas logo as tempestades se tornam cada vez mais frequentes, e já não há proteção contra elas, é como se o inverno chegasse com raiva, empurrando tudo o que há pela frente.

e eu nunca fui rapaz de chuvas. 
sempre preferi o sol às nuvens.

e quando a chuva se torna feroz, agressiva, provocando catástrofes, é sinal de que é hora de me retirar, de novamente pegar meu barco, e velejar pra longe dali, esperando encontrar águas mais calmas.
quem sabe no próximo oceano encontro meu porto finalmente seguro?

o importante é que, mesmo saindo ferido de todas essas situações, me reconstruo sempre, e mantenho meu coração crente, cheio de esperança, que segue esperando um meio feliz, sem final.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

# 293



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ontem eu e alguns amigos ficamos totalmente tocados por um video de casamento.
e esse é um assunto muito delicado.
é que casar é muita coisa.
é juntar dentro de casa as duas vidas, com todas as manias, irritações e sorrisos, tudo num mesmo pacote.
é um ato de coragem, indiscutivelmente. 
sim, porque é lindo acordar do lado de quem você gosta todo dia, e é lindo preparar comida pra dois, passear com o cachorro, e etc.
mas tem também que aguentar aquele bafo matinal antes de escovar os dentes, a toalha molhada em cima da cama, e aquela briga por motivo besta, ou não.
é comprar estoque de bom ar pro banheiro, e saber diferenciar os pares de meia, e receber a visita da sogra.
enfim, como tudo na vida, tem o lado bom e o lado ruim.
e falo de cadeira, porque já fui casado.

e eu, que andava desgostoso com essas coisas de namoro, casamento e etc., depois daquele video, fiquei todo todo, morrendo de vontade de ter uma vida a dois, só falta um par, que seja emocionalmente equilibrado, claro. 
vamos ver até quando esse bichinho casamenteiro vai continuar me picando.

agora em setembro um dos meus melhores amigos vai se casar, e já tou cheio de ansiedade pela cerimônia, que acho que vai ser daquelas de arromba.
eu fico muito orgulhoso da coragem dele, e da história também, que acompanhei desde o começo, e tenho certeza que vai ser tudo muito bonito.
e tou esperando ansiosamente pelo final da cerimônia, pra gente abençoar essa união.
que seja eterno, e ponto.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

# 292

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há quem diga que o mundo é uma selva.
eu concordo.
foi graças à essa selvageria toda que eu conheci o meu leão.

e quem diria que ele permaneceria na minha vida por tantos anos... 
ele é sofisticado, chic, organizado, e inteligente que só ele.
e ainda assim a gente se dá tão bem, que é difícil ver duas pessoas tão conectadas.
deve ser porque esse leão tem a coragem de rei da selva pra peitar essa minha peçonha escorpiana.

só sei que nossa amizade já passou por trancos e barrancos, e a gente nunca despencou.
me encho de alegria quando ele me vem, com aquele jeito só dele, me contar de suas artes.
e morro de saudade do nosso sofá, de nossas conversas diárias in loco, da  nossa parede laranja na sala.
a gente se sabe muito, e se fala muito, e se conta muito. porque a gente sabe que a gente resiste a terremoto e furacão.

o meu leão, a quem chamo de bliblo também, essa palavra inventada, que serve muito bem pra essa nossa amizade que a gente inventou pra nos caber. 
porque, se não nos soubessemos como sabemos, se o destino não desse uma mãozinha pra esse nosso encontro tão feliz, acho que não haveríamos de ser amigos, talvez, nem de termos nos esbarrado na vida, de tão diferentes.
e a invenção foi tão boa, tão genial, que deu certo.

eu já perdi a conta dos anos de nós dois, se bem que desconfio que já passam dos milhares.
e sou bem feliz de o mundo ser uma selva. se não fosse, talvez leão eu não teria.
se leão eu não tivesse, talvez eu mesmo eu não seria.
então, a dica é: tenham todos um leão pra vocês.
um Leo.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

# 291


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fazem cinco meses que ele se mudou pra casa nova, que escolheu as cores das paredes, das portas, e o que ficaria e o que não levaria consigo pra casa nova.
num canto da sala, que tem as paredes pintadas de "vanilla", como veio escrito na lata de tinta, mora um pé de "comigo ninguém pode", que ganhou da ascensorista do prédio.

nas paredes da sala vivem dois passarinhos ilustrados, presentes da Poli e do João. em cima da televisão fica um cãozinho de pelúcia, que ganhara anos atrás, e 
na divisa da sala com a cozinha, os elefantes indianos ficam pendurados, anunciando os ventos fortes com seu sino, presentes do Saulo e do Rafa.
ainda na sala ficam livros, cds, dvds e o telefone, em harmonia com a estátua de parafuso tocadora de violino, que sua lhe dera.

na cozinha, seus temperos de todas as variedades dividem espaço com pratos, panelas, uma chaleira preta que apita, e a garrafa térmica verde. quase tudo na cozinha é verde. pra contrastar com porta verde, a única da casa que não foi pintada de preto.

seu quarto é quase todo azul, com exceção de uma parede, pintada num amarelo claro, que é pra não deixar que o ambiente ficasse triste. na parede, o desenho de uma pomba com um coração, dado pelo João, e na outra uma caveira bonita, azul, feita pelo João também, e que não causa medo.
tudo em contraste com a cama, o armário e a mesa do computador, sobrando ainda um espaço grande.

sua casa é aconchegante, e tem um clima bom. tanto que desde que mudou-se passou a ser mais caseiro, saindo muito pouco, de tanto que gosta de lá ficar, e de receber seus amigos.

são cinco meses morando sozinho. 
no começo sentiu um susto, já que nunca havia vivido só antes. 
ainda hoje acostuma-se com a situação, mas muito satisfeito e orgulhoso de suas decisões.
muita coisa mudou em sua vida desde que foi pra casa nova, e isso enxerga com olhar de observação, e entende que o que tem que ser, simplesmente o é.
não se arrepende de nada, na sua casa não há espaço pra isso, só há espaço pra viver o que a vida lhe traz, assim, sem medo, que nem quando não teve medo de pintar as paredes sozinho.

e na porta fica um tapete de "Boas Vindas", presente da Eliene, que é pra se saber que visitas são sempre muito queridas. =]


segunda-feira, 20 de agosto de 2012

# 290

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o que falta no mundo é a prática do "pode não querer."

lembro que escutei essa expressão pela primeira vez lá pra 2003, e ela sempre me chamou muito a atenção, tanto que a adotei.
a gente vive numa cultura de que deixar de aceitar alguma coisa seria falta de educação, no caso de comida, por exemplo, daí a gente sempre "quer", mesmo com aquele sorriso amarelo, e a expressão de "ai meu deus" no rosto. daí a gente acaba aceitando, que é pra não fazer desfeita.

e o pode não querer também é aplicado aos relacionamentos. 
é engraçado como que a gente sempre tem que ter uma desculpa pra essa ou pra aquela falta de querência, tendo que justificar as coisas, por mais simples que sejam, sem um descanso, sem um relaxamento.
às vezes a gente só quer ficar sozinho um pouco, e isso não é o fim do mundo.
de vez em quando a gente só não quer ver filme de mão dada, sem que isso signifique nada.
às vezes a gente só não quer. e ponto.

só que todo mundo é acostumado a se justificar, a dar desculpas. e, como diria a música, "e desculpas nem sempre são sinceras, quase nunca são". 
eu, particularmente, não peço explicações pra atitudes. na maior parte elas vêm sem pedido mesmo, e sem pé nem cabeça.

uma vez escutei que o namoro tinha que terminar porque eu não tinha microondas, noutra porque o tarot havia previsto que o relacionamento não daria certo, e tantas outras que eu poderia listar.
no fim das contas, são todas desculpas.

o que realmente havia ali era simplesmente o não querer. já não queriam mais namorar, manter o relacionamento, se ver, enfim, não queriam continuar com aquilo que havia, mas, por algum motivo, acharam que era obrigatório que se tivesse uma justificativa. não era. nunca foi.

pode não querer se estar junto, sem desculpas.
não é crime e nem pecado.
pode não querer, e só.

terça-feira, 26 de junho de 2012

# 289


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nunca me dei muito bem com gatos.


acho que desde criança, quando um mais arisco invadiu o meu quarto, e numa tentativa de pular a janela pra subir pro telhado, deu com a mesma fechada e me arranhou a testa, já que eu estudava numa escrivaninha que ficava bem abaixa dela, desenvolvi um mini medo de gatos.

a regra era simples: eu não chegava perto deles e eles não chegavam perto de mim, quase que numa repelência recíproca.

daí nunca me interessei muito pelos felinos e sua atitude blasè, seu jeito mais "tou nem aí" e sua independência.
os observava de longe, escutava relatos dos amigos que os criam, e até me arriscava em chegar perto de alguns, em meus dias de maior coragem.
mas sempre num distanciamento, já que os próprios miadores não iam muito com a minha cara.

até que nesse último fim de semana conheci a Crioula, aquela gatinha preta de poucos meses, que corria de um canto pro outro pela casa, em meio aos convidados, e que adorava morder a todos.
quando me sentei no chão, Crioula logo veio pro meu lado, me encarando fundo nos olhos, passando por trás de mim, até que se aconchegou no meio das minhas pernas cruzadas e lá se instalou.
deitada, me permitiu que fizesse uns carinhos em sua cabeça, que inicialmente saíram um tanto tremidos e nervosos, mas logo, quando me assustei, estava entregue aos encantos daquela miniatura de felino.
Crioula me derreteu, deitou na minha perna e ali dormiu por um longo tempo, ronronando baixinho, e soltando pequenos miados.

como todo gato, era soberana. ficou na minha perna até quando quis, mesmo com a minha perna já dormente, dando aqueles choquinhos que chegam até a ser gostosos.
depois de muito tempo ali deitada, Crioula acordou, se esticou toda, e saiu rebolosa pela casa, nem me deu mais bola, mas o estrago já estava feito. 
passou o meu medo de gato, e confesso, por uns minutos até tive vontade de ter um miando pela minha casa. por uns minutos só, pelo menos por enquanto.

# 287



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sete anos foi o tempo que aquele momento permaneceu congelado.
sete anos.
e de repente, era como se não houvesse passado tempo. 
como se a vida emendasse aquelas duas noites tão espaçadas.

e sete anos não são sete dias. 
é tempo suficiente para uma criança aprender a ler e escrever. 
tempo bastante pra vida escrever bastante história na vida de duas pessoas.

mas a vida não deixa ponta sem nó, e, mesmo que se passem tantas noites únicas, aquela, em especial, permaneceu ali, inalterada, inacabada.
era como se faltasse um ponto final ao fim da frase, e sabemos o quanto um texto não pontuado se torna complexo, saramaguiano.
talvez numa arte do destino, tenha chegado o momento da concretização daquele quase. 
e como que numa viagem no tempo, parecia que o relógio voltara, e aquele momento antes congelado foi retomado.
com o mesmo encanto, com o mesmo fascínio e magnetismo.

aquele furacão gerado pelo encontro daqueles dois seres podia finalmente girar, sem medo de destruir tudo ao seu redor.
a força era justamente a inversa, a força da construção.
e, mesmo que se congelasse de novo aquele novo momento, já teria valido a pena.

encontros assim, de girar mundos, não acontecem por acaso, e nem com muita frequência. são raros.
encontros assim, de girar mundos, viram reencontros, quando descongelados.
e haja mundo pra girar.

terça-feira, 12 de junho de 2012

# 286

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- resgate -


De repente veio uma tempestade e abalou tudo. Podia ter sido um vento qualquer, ou uma chuvinha de verão... mas não, foi uma tempestade... afinal, era por isso que ele esperava e acreditava. Uma tempestade que abalasse a calmaria que ele vivia. Não que não gostasse daquela vida, mas não havia nascido praquilo. 

E daí as coisas foram levantando vôo. Tudo ficou de pernas pro ar. E ao invés de achar isso ruim, ou deseperador, ele olhava pra todas as coisas que até então possuía sendo levadas pelo vento e sorria o seu sorriso mais bonito. 

E desejava poder tomar parte da tempestade, se tornar chuva também e ventania. E prometia pra si mesmo que se moldaria da forma que a tempestade pedisse, que se sentiria um planeta se aquela chuva grande o aceitasse. 

Não mais que de repente viu pele virar gotas de água e a respiração virar vento. Ele e a tempestade eram então um só. E da monotonia se fez guerra. Não guerra de sangue, de morte, mas guerra de vida, uma guerra que traria como saldo sua felicidade. E da tristeza anterior, não se tem notícia. 

Assim como todas as coisas que possuía foram transformadas em destruição, ele se transformara também. Morria a calmaria. Vivia a tempestade. A tempestade que ele acreditava que viria. 

sexta-feira, 8 de junho de 2012

# 285

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mudança de casa é mudança de vida.

venho discutindo isso com a analista já faz um tempo.
parece que depois que me mudei pra casa nova, pela primeira vez morando realmente sozinho, me passou um furacão pela vida, alterando quase tudo o que parecia já estabelecido, estável, e colocando as coisas em outros lugares.
a mudança de casa trouxe com ela uma série de revoluções pessoais. 

pela primeira vez na vida eu me vi morando num lugar onde eu estava só comigo mesmo. 
e sem previsão alguma de dividir meu pequeno reino com ninguém. e isso não me doía.
e não me dói. 
ainda estou em fase de me acostumar a chegar depois de um dia trabalho e ficar comigo mesmo. e acho que isso é uma questão de costume mesmo, que já tenho quase tirado de letra.
por alguns momentos me sinto sozinho, melancólico, mas no geral, me sinto é bem, e consciente e orgulhoso das minhas escolhas e decisões.

a verdade é que ninguém se mantém na vida de ninguém por obrigação.
e a própria dona vida trata de fazer uma triagem de quem permanece e de quem sai de cena.
não é preciso muito esforço pra isso, o que vale pra amizades e amores.

no momento, me vejo em plena reconstrução.
reconstrução de uma casa, de uma identidade, de um lar, de amizades.
algumas se perderam com a própria mudança, assim, sem brigas, sem desentendimentos explícitos, só foram pra longe.
umas se manteram, outras voltaram, outras se recosturaram, outras nasceram.

é o ciclo que toda mudança traz. 
um novo todo contexto de vida. 
uma realidade diferente, que deve ser vivida.

no fim, a mudança têm me feito bem, me reafirmado da minha independência, e me mostrado que eu me basto pra um tanto de coisas.
pras outras, eu tenho amigos, que se mantém comigo, independente de qualquer coisa.
no fim das contas, não me arrependo é de nada.
tenho toda uma vida cheia de acertos e erros pela frente. 
e minha casa nova tem elefantes pendurados e apetrechos verdes na cozinha.
=]

domingo, 27 de maio de 2012

# 284


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sou absolutamente contra o coitadismo.

todo coitadinho, antes de ser coitado, fez alguma merda bem grande, sacaneou alguém, maltratou, deitou e rolou.

só que quando o jogo vira, é mais fácil se acoitadar do que reconhecer os erros e pedir desculpas. claro, a vítima é sempre a mais cuidada, a mais socorrida.

sou completamente anti coitadismo.
detesto me fazer de vítima, que vejam como o vilão mesmo.
nunca posei de santo, de bonzinho.

sou só humano, que é bom e mau, na mesma proporção.
mas entre o vilão e o coitadinho, prefiro o papel do vilão.
afinal, quando a novela termina a gente se lembra é de quem? da nazaré, da laura ou daquela outra, tadinha, que já nem lembro o nome?

#283

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então é assim.
eu gosto, me entrego, mergulho de cabeça mesmo, sem medo de ser quem sou, sem medo de querer ser feliz.
e, na maior parte das vezes, me encanto com um esboço, com uma vontade alheia de ser quem não é, de um papel bem desempenhado de um personagem.
papel esse que dentro de alguns meses não consegue mais ser mantido.

daí, passam a aparecer as prioridades unilaterais, por parte de mim, que não fui personagem e que só queria viver aquele encontro, aquele conto. passa a parecer que só eu tinha vontade de encontrar, de ver, que a saudade era só de mim.

com o tempo, o esforço que se faz só de um fica fraco, que se cansa, e a tendência do outro, já acomodado, e certo de que não seria solto daquela relação, era de que a coisa permanecesse daquele jeito.
só que não é bem assim.
paciência, uma hora, se esgota. submissão também. e aquele que é submetido à toda essa romaria de vontade alheia, se cansa e grita seu "chega".

daí a vida se abre, e aquele que outrora fazia pouco caso, desprezava, agora entende que o outro lhe era sim importante.
mas esse outro já se cansara de amores tardios. do perder pra valorizar. não mais lhe cabia.
daí, seguia sua vida, assobiando uma canção que dizia que um dia havia de encontrar alguém que lhe valorizasse desde o começo, que não precisasse de um susto, de uma perda, pra perceber o seu valor e sua singularidade perante o mundo.

e, num cantar baixinho repetia "ninguém vai me dizer o que sentir".

# 282

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e quando eu começo a gostar de alguém, eu não tento, de forma alguma, parecer ser quem não sou.
já fazem quase três ano e meio de terapia pra entender que gosto de mim do jeitinho exato que sou.
daí, me apresento, assim, cheio dos defeitos e qualidades que a vida me moldou. feliz, satisfeito, eu.

e de modo linear, sigo naquele relacionamento, às vezes me adaptando àquele ou àquele outro particular, desde que não exija que eu fuja muito da minha essência, paciência para isso me transborda.

o que não aceito é o abuso. abuso do respeito, da paciência, da adaptação.
abuso daquilo que é liberado pelo bem do casal.
abuso unilateral do direito de dizer não. de não querer ou poder se adaptar de acordo com a agenda do outro.
não aceito ter que me submeter, que regular a minha vida de acordo com a vontade de outrem.

 em 30 anos de existência, a vida insistiu em me mostrar que não é na base do grito, da chantagem, do apelo, que a gente consegue ficar junto de alguém. é na base da cumplicidade, que nunca, jamais, pode ser unilateral.

é comum pra mim, já no decorrer de tantas relações, de ter a importância reconhecida só a partir do momento em que se finda a relação. isso já ocorreu várias vezes, na maioria delas, aliás.

o que ficou pra mim é a certeza de que mergulhar num relacionamento, me entregar e viver tudo aquilo que me aparece à frente é legítimo. que eu devo permanecer nessa jornada, nesse entregar. por isso, não me arrependo de nada do que vivi.

só fico triste de saber que esse valor todo, essa entrega, só é reconhecida após muito abuso, muito desafio, muito cansar do meu bem querer. só é reconhecido quando a pedra já não me parece tão preciosa assim.

é difícil nesse mundo de acomodamentos, que a gente se dê conta e valorize o sentimento alheio, que a gente perceba que já é feliz. a gente quer sempre mais. e nessa busca pelo mais, a gente deixa pra trás, talvez, o que tenha sido de mais real no campo sentimental na nossa vida.

o que ocorre é que esperar cansa. que ter que ver perder pra ganhar cansa. e que ter reconhecido o que se é, depois de muita luta, cansa.

o recado que fica é, que abramos os olhos pra o que nos exalta, que brilha, e deixemos as coisas com que se preocupar com o tempo. o que importa é ser feliz, agora, nesse momento.


sábado, 5 de maio de 2012

# 281

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ele nunca quis ser uma pessoa óbvia.
mas, é óbvio, que nem sempre é possível driblar a obviedade.
sim, porque de vez em quando o único caminho da vida é seguir aquele roteiro mesmo, que todo mundo segue.
claro que durante a caminhada é possível fazer pequenas adaptações, pra poder fugir do clichê, mas sair do resultado final, ah, aí não dá.

e era assim em todos os aspectos de sua vida.
quando escolheu sua profissão, quis ir na contramão de todo o seu histórico familiar, e virou o primeiro da família a fazer direito.
comeu o pão que o diabo amassou no começo, mas depois de algum tempo de trabalho deu-se por satisfeito.
não seguiu o roteiro como manda o figurino. ia pra faculdade de all star todos os dias, e só comprou o seu primeiro terno pra ir ao baile de formatura.

na vida familiar a mesma coisa. enquanto seus primos e parentes da mesma faixa etária moravam com os pais, dentro do conforto de não ter que pagar contas de moradia, ele não, resolveu que ia sair de casa cedo, aos vinte e poucos anos, e lá foi-se, se desdobrando pra pagar as contas, mas bem feliz no seu cantinho. 
e desde sempre viveu em casa, com passarinho, cachorro e planta. mas quando deixou a casa dos pais, resolveu que viveria em um apartamento. 
com horário de fazer barulho, vizinho de porta e tudo o que tinha direito.
na contramão de ter um quintal.

quanto à vida amorosa, outra fuga do lugar comum. 
não gostava de se imaginar repetindo um comportamento do namorado anterior de alguém. 
por isso nunca gostou de dar buquês de flores.
quando muito, dava uma planta no vaso, que era pra ser cuidada e durar mais.

e mais, vivia tentando fugir dos clichês. 
mas como um apaixonado foge de clichês? não tem jeito!
às vezes tem que seguir sim o roteiro.
mas ele é um cara de improvisações, e por isso, tenta, de todo modo, fazer aquele ou outro acréscimo dentro do texto já pronto.

é, às vezes é impossível fugir das obviedades, mas sempre é possível deixar seu diferencial.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

# 280

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na primeira pincelada quase desistiu.
ele nunca teve muito jeito pra fazer as coisas dentro da paciência que elas exigem. sempre foi prático, rápido, acelerado.
mas insistiu e continuou a pintar a porta de seu quarto. ele queria finalizar as coisas que precisavam de fim.

e cobria de tinta preta toda aquela porta amarelo clara que dava acesso ao seu quarto novo.
com uma paciência que lhe causava estranhamento, continuou a pintar, escutando músicas calmas, enquanto cantava junto.
talvez aquela calma que havia encontrado fosse fruto de seus 2 dias de isolamento do mundo, graças a uma amigdalite que lhe atacara uns dias antes, que lhe pediu um repouso pra curar, e, salvo a uma ou duas visitas de amigos, e alguns telefonemas, estava ali consigo mesmo.

lhe espantava que não estava fazendo a bagunça que se esperava dele mexendo com essas coisas de tinta, afinal, todos sabem que ele é um tanto quanto elétrico.
e achava graça disso mesmo, principalmente pelo fato que nem ia precisar passar aquele produto com cheiro forte pra limpar as mãos da tinta preta quando terminasse.

o resultado é que, depois de mais ou menos 1 hora e pouco, ele já tinha sua porta preta prontinha, sem muitos pingos de tinta no chão, sem muita tinta escorrida pela porta, o que lhe deixou muito satisfeito do trabalho que teve.
e pouco a pouco ele via sua casa terminar de tomar forma, de terminar de sair do plano pra realidade, e ficava bastante orgulhoso de si.

domingo, 29 de abril de 2012

# 279


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eu sou aquele que tem medo de filme de terror.
aquele que usa roupa barata de noite e terno e gravata de dia.
eu não ligo pra rasgos e furos,
pra pequenas bagunças e copos na pia.

gosto de música brega e de rock, ao mesmo tempo
de ler livros em pé dentro do ônibus
não ligo de pegar ônibus
e me amarro no metrô

sou aquele que acorda de bom humor
que canta andando pela rua
que gosta de melancia
e que ama pipoca doce

eu sou desses que se entrega totalmente quando gosta
que não tem medo de decepção
e que desanima quando não tem retorno
ah, e que odeia mensagens de celular

aquele que gosta de karaokê e de barzinho
que assiste novela, mas prefere os amigos
que corre pela casa pra sentir-se vivo
e que tem trilha sonora pra arrumar cozinha

eu tenho medo de calangos, mas adoro me deitar na grama
sou louco pelo mar, praia e sol
e detesto ficar com pés molhados pela chuva
mas gosto de ver o arco-iris pela janela

eu sou essa bagunça toda
esse cara cheio de defeitos e qualidades
todos construídos ao longo da vida.
e eu gosto demais de ser assim, de ser eu
e de mudar o tempo todo,
mas só quando a mudança partir de mim mesmo.

terça-feira, 3 de abril de 2012

# 278


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"It's always darkest before the dawn".


e "shake it out" da Florence + The Machine tem essa frase, que diz que "é sempre mais escuro antes de amanhecer".
e a verdade é que é uma música que dá uns trem na gente, que faz querer mexer, e que, quando ouço, sobe um arrepio pela espinha toda, me fazendo quase não caber em mim.
tenho isso com algumas músicas. 
essa sensação de crescer tanto alguma coisa aqui dentro que eu precisaria de mais alguns metros de corpo pra caber.
e adoro isso.

e desde sempre eu tenho essa mania de otimismo, já até falei disso algumas vezes aqui nesse blog, e fico satisfeito demais quando constato que ainda guardo disso em mim.
certo é que hoje eu carrego um tanto de realismo junto. algumas coisas simplesmente são ruins e não tem solução. 
c'est la vie. é a vida. 
o que tento é não ficar arrastando cruzes, esticando sofrimentos por temporadas e temporadas.
a maioria das coisas pode ser remediada quando foge da normalidade. 
pode ser consertada, colada com superbonder, ou simplesmente perdoada.

por isso me policio pra não me aborrecer com pequenas perdas e com "quases"
o negócio é fazer que nem cachorro molhado e se chacoalhar de vez em quando pra expulsar os pesos das costas, pra poder dançar a música que a vida tá tocando naquele momento.
vamos combinar, quem é que nunca pensou em trilha sonora pros seus momentos?

shake it out.

-- 

sábado, 4 de fevereiro de 2012

# 277

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eu queria me encontrar com ela com mais frequência. 
apesar de nos falarmos sempre por e-mail, nossos encontros são únicos e sempre incríveis.
a gente fala da vida, de amor, de paixão, de sexo, trabalho, arte, cinema, enfim, não temos tabus em nossas pautas. e isso é o mais gostoso.

a Poli tem sempre uma história nova, e sempre ótima, pra contar.
e aquele jeito espontâneo, e certo do que quer, aquela ousadia e atrevimento formam o charme dessa moça, que não tem medo da vida não.

por algumas vezes nos vimos tristes, e sentamos pra falar sobre isso, conversando sobre o mundo e suas coisas engraçadas, suas voltas, e como algumas coisas nos atingem, assim, sem a gente nem perceber de primeira.
e mesmo nesses dias de tristeza, saímos de nossos encontros sorrindo, porque chegamos às conclusões mais absurdas e engraçadas, e entendemos que por mais tropeções que tomemos mundo afora, a gente sempre se levanta e dá a volta por cima.

estar perto dela é estar perto de arte, de carinho, daquela gargalhada gostosa, da cara de espanto, e de uma amizade leve, profunda e leal.
Poli é dessas meninas mulheres que não tem vergonha de viver, não tem freios, e, que cria seu próprio comportamento.
e o mais importante, ela se faz feliz, se diverte. 
é uma moça num maiô de bolinha, deitada numa toalha colorida.



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

# 276

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"a gente tem que aceitar que o ruim também faz parte de nossa história."

essa frase saiu agora a pouco numa conversa com meu amigo João, e é a mais pura das verdades, ao meu ver.
a gente sempre tenta construir coisas boas, bonitas. acho que todo mundo tenta acertar o tempo todo, mesmo cometendo erros.
é que ninguém quer errar.

e essa tentativa de construção de coisas boas na vida, é pra poder olhar pra trás e ver uma história bonita, boa, correta.
mas, pôxa, nem sempre é possível acertar.
é permitido errar, pra todo e qualquer ser humano. 
é liberado tomar uns tropeções de vez em quando, machucar o dedão do pé, se queimar com a panela.
e também é possível que pela vida passem pessoas que nos façam mal, ou que permitimos que nos façam mal, que deixam marcas ruins.

o que a gente evita é de olhar pra trás e ver que no que a gente viveu também há manchas, marcas ruins.
ninguém quer admitir que teve erros no passado, que fracassou nisso ou naquilo, ou que coisas ruins aconteceram por atitudes nossas, ou por permissões veladas que demos a terceiros.
a gente tem a mania de achar que tem que ter uma solução pra tudo, que há conserto praquela coisa ruim. 
mas memória é memória. fica na gaveta do passado. não dá pra ir lá e consertar. 

então, é bom a gente se tocar de vez em quando, e ter a consciência de que não temos a obrigação de sermos certos e perfeitos o tempo todo. a nossa obrigação é sim de tentar ser o melhor que conseguirmos.

a gente tem é que aceitar que ruim também faz parte de nossa história, e aprender com ele, tirar alguma coisa boa do ruim, nem que seja o medo de repetir, desde que não vire trauma, até porque não acredito em traumas, mas isso é assunto pra outro texto.

por enquanto, vamos olhar pra trás, pra tudo o que construímos, e ver que bem ou mal, foi a base pro que somos hoje. 

eu me orgulho da minha história, mesmo com os ruins dela. até porque sem os ruins, os bons não seriam tão prazerosos.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

# 275

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turbulências.

tenho pensando muito a respeito de turbulências nos últimos dias.
não só as de avião, mas as da vida.
turbulências são aquelas coisas que acontecem, bagunçando a ordem das coisas, fazendo barulho, causando medo, mas depois passam.

quando mais novo eu tinha medo de avião, justamente por conta das tais turbulências. 
eu tremia só de pensar que teria que viajar de avião pra algum lugar, e quando entrava na nave ficava tenso, de olhos fechados por muitas vezes.
até que um dia, a turbulência tão temida aconteceu num vôo de BH pra Florianópolis. 
e o engraçado foi que, enquanto ela acontecia, em vez de entrar em pânico, eu fiquei calmo, calado, e esperando que passasse. 

e na vida é assim que acontece também. 
uma vez, num episódio de Xena, ela, falando de seu passado, apontava pra um lago e dizia: "veja aquele lago, está tranquilo e sereno, mas se você jogar uma pedra na água, tudo vai se estremecer, formar ondas, e tremer por um tempo. Logo, tudo vai voltar ao normal, a água vai ficar calma de novo, mas aquela pedra que causou o tumulto ainda vai estar lá, e mesmo que você a tire, a marca dela vai ficar. o lago nunca mais vai ser o mesmo."

acho que a gente pode comparar essa história do lago com as turbulências. depois da que passei no avião, nunca mais tive medo de voar.
e na vida é da mesma forma.

a gente passa pelas turbulências, têm as águas enervadas por pedras, e tudo passa, volta à calmaria, mas sempre deixa marcas.


terça-feira, 10 de janeiro de 2012

# 274

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sempre vai ter alguém pra te encontrar defeitos.
é que o mundo em geral tem uma visão meio pessimista das coisas.
talvez seja mais fácil e cômodo pensar pelo lado ruim, em vez de se forçar a alimentar esperança e pensar que as chances de algo dar errado são as mesmas de dar certo, 50/50.

bater o pé pra ser otimista no mundo de hoje pode até parecer meio bobo, mas no fundo, todo mundo sabe que pra que alguma coisa dê certo, a gente precisa acreditar, pelo menos um pouquinho, que há a chance de dar certo.
e, por mais Poliana que pareça, eu realmente acredito no poder da positividade.

desde pequeno sempre tive essa mania, de tentar ver o mundo por uma ótica de possibilidades, mesmo quando tudo e todo mundo apontava que não havia solução pros meus problemas. 
como eu disse ali em cima, sempre vai ter alguém pra apontar defeitos, em tudo.
nunca foi muito problema pra isso essa tendência, quase malvada, de negativismo alheio. nunca me fez deixar de pensar nas possibilidades boas.

não tou dizendo aqui que a gente tem que ser cego e só pensar que as coisas serão boas sempre.
de jeito nenhum. ser otimista não prejudica o ser realista. 
às vezes a gente tem que encontrar força até nas coisas ruins, pra que possamos superar e seguir em frente.
o mundo não é fácil, mas também não é esse monstro todo.

lembremos, a chance de as coisas darem certo e errado são as mesmas, 50/50.